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A colheita que ninguém faz sozinho
Agro

A colheita que ninguém faz sozinho

Uma homenagem ao Dia do Cooperativismo, com raízes em Palotina

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Novembro de 1963. O chão do interior do Paraná ainda guardava o cheiro de mata recém-derrubada. Famílias chegavam de outras regiões do país atrás de terra fértil e de um recomeço, e encontravam os dois lados da mesma moeda: solo generoso, mas nenhuma estrutura para sustentar o que ele produzia. Não havia armazém para guardar a safra. Não havia estrada decente para escoá-la. Não havia banco que confiasse crédito a quem só tinha, como garantia, a própria coragem.

Foi nesse cenário que 24 agricultores decidiram fazer algo que parecia simples, mas era revolucionário: em vez de enfrentar sozinhos a incerteza da terra, resolveram enfrentá-la juntos. Uniram-se e fundaram, em Palotina, a Cooperativa Agrícola Mista de Palotina (Campal). Não sabiam que estavam plantando algo que ultrapassaria décadas, fronteiras estaduais e, mais tarde, até a fronteira do país.

Do primeiro armazém aos seis estados

O crescimento não veio da noite para o dia. Levou anos até que o primeiro armazém ficasse de pé, recebendo trigo de um moinho local. Levou mais tempo ainda até que a pequena cooperativa mudasse de nome, passou a se chamar Coopervale, e começasse a atravessar as fronteiras do Paraná rumo a Mato Grosso e Santa Catarina. Na virada dos anos 1990, uma nova geração de dirigentes apostou em modernizar a estrutura e agregar valor ao que os associados produziam. Foi o início de uma indústria própria: primeiro os frangos, depois a mandioca transformada em amido, depois o peixe, a suinocultura, o leite.

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Hoje aquela cooperativa nascida de 24 famílias tem outro nome, C.Vale, e outra escala: mais de 29 mil associados, cerca de 15 mil funcionários e atuação que vai do Paraná ao Mato Grosso do Sul, passando por Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás e o Paraguai, com produtos que chegam a dezenas de países. Ainda assim, o coração continua batendo no mesmo lugar: Palotina é onde tudo começou, e é lá que a sede permanece até hoje. Em uma das últimas celebrações de aniversário da cooperativa, autoridades locais lembraram, emocionadas, que aquela empresa gigante nunca deixou de ser, em essência, filha da própria cidade, nascida da união de gente comum que resolveu não desistir da terra.

E Palotina não guarda essa história sozinha. A C.Vale integra, junto com outras cooperativas da região Oeste do Paraná, redes maiores de cooperação — parcerias que sustentam desde terminais de grãos no litoral até um moinho de trigo que ainda opera no município. É a prova viva de que uma cooperativa raramente cresce isolada: ela cresce cooperando com outras cooperativas, num efeito em cadeia que atravessa gerações.

O primeiro sábado de julho do mundo inteiro

Essa história de Palotina é, na verdade, um capítulo de uma história muito maior. Em 1923, a Aliança Cooperativa Internacional decidiu que o primeiro sábado de julho seria dedicado a celebrar essa forma de organizar a vida econômica baseada em ajuda mútua. Décadas depois, a data ganhou reconhecimento oficial da ONU, e o mundo passou a chamá-la de Dia Internacional do Cooperativismo. Em 2026, a celebração chega à sua 104ª edição, e o tema escolhido pelo movimento cooperativista mundial é justamente sobre construir pontes: cooperativas por um mundo mais pacífico, mais dialogado, menos fragmentado.

No Brasil, os números ajudam a entender por que essa data importa: milhões de cooperados, milhares de cooperativas, bilhões em resultados que, diferente do que ocorre em empresas comuns, não vão para acionistas distantes, mas voltam para dentro das próprias comunidades que os geraram. É esse detalhe, pequeno na aparência e enorme na prática, que separa o cooperativismo de qualquer outro modelo de negócio: quem produz o resultado é quem também colhe o resultado.

O mesmo gesto de 1963

Existe algo bonito em pensar que o gesto simples de 24 agricultores decidindo se unir, há mais de sessenta anos, ainda se repete hoje, em cooperativas de crédito que financiam o pequeno produtor, em cooperativas de saúde que atendem famílias inteiras, em cooperativas de trabalho que dão dignidade a quem antes não tinha porta para entrar. Palotina carrega esse gesto na própria identidade da cidade. E talvez seja esse o maior legado do cooperativismo: mostrar que a colheita, qualquer colheita, de grãos ou de oportunidades, é sempre mais generosa quando ninguém precisa fazê-la sozinho.

Feliz Dia do Cooperativismo.

FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Assessoria de imprensa

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