
Por Rafael Fantin
A política protecionista imposta pelo governo Donald Trump no início do segundo mandato na presidência dos Estados Unidos colocou o agro brasileiro em estado de alerta. A taxação de produtos estrangeiros e as relações comerciais entre os americanos e o governo da China devem impactar o setor agrícola, caso o presidente republicano confirme as promessas de campanha.
Especialistas do agronegócio brasileiro ouvidos pela Gazeta do Povo afirmam que o setor precisa procurar novos mercados para diversificação dos negócios, sem perder o foco na exportação aos chineses, principal parceiro comercial brasileiro. Além disso, o governo Lula deve manter o tom diplomático na discussão de temas sensíveis com a gestão Trump, evitando danos colaterais para o agro, principal protagonista da balança comercial brasileira.
Apesar de o agro ter sido beneficiado pela postura protecionista do republicano no primeiro mandato (2017-2021) em relação ao mercado chinês, que possibilitou a maior entrada das commodities brasileiras no país asiático, o presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado federal Pedro Lupion (PP-PR) avalia que Trump deve trabalhar pela ampliação do mercado na China para os produtos norte-americanos. Ou seja, a tendência é de forte concorrência entre Brasil e Estados Unidos, principalmente pela fatia chinesa na exportação de soja e milho.
“Estamos entre as três maiores potências produtivas do mundo ao lado da China e dos Estados Unidos. Disputamos os mesmos mercados em uma concorrência extremamente importante. A disputa de mercado com os Estados Unidos é muito agressiva e forte, mas até agora não existia uma participação efetiva dos americanos nas negociações diretas com a China. A situação era mais pró-Brasil com o mercado chinês aberto com possibilidade do agro brasileiro entrar”, avalia.
“No meu entendimento, o cenário não continuará assim. O Trump vai chamar a China para a mesa: ou aumenta a cota americana ou terá problemas com os Estados Unidos em outras áreas. Isso é normal, está dentro do previsto”, completa o presidente da FPA.
Lupion comentou que ainda é cedo para avaliar como a China responderá à compra de soja e milho norte-americano, mas ressaltou a necessidade de priorizar as relações comerciais com o mercado chinês. “A gente não pode perder essa ponte. A gente fala muito da União Europeia, fica muito preocupado com o bloco europeu, mas a China representa a maior parte das exportações. Temos que ficar de olho nos nos dois lugares, tomando muito mais cuidado para não ter nenhum melindre com os asiáticos".
Ele pontua que não são somente commodities. "Também estamos falando de carne, produto acabado e proteína com o esmagamento de soja e milho que temos aqui. É toda uma cadeia produtiva que não podemos perder o protagonismo”, alerta.
Seguindo o bordão “Make America Great Again”, a política trumpista tende a colocar os Estados Unidos, novamente, como uma potência exportadora, de acordo com Lupion, com medidas para o avanço da industrialização norte-americana. “As tarifas impostas à China são para garantir mão de obra para os americanos e diminuir a entrada de produtos industrializados chineses nos Estados Unidos para fortalecimento da indústria local”, pontua.
Conforme a balança comercial brasileira de 2024, a China se manteve como o principal parceiro do agronegócio com a compra de US$ 49,7 bilhões, o que representou 30,2% das exportações do setor no ano passado. No comparativo com 2023, a participação chinesa no agro brasileiro caiu 17,5%.
O principal produto vendido para a China foi soja a granel, totalizando US$ 31,5 bilhões com 72,6 milhões de toneladas de grãos. O montante representa 63% das exportações, sendo que os chineses compraram 73,4% do estoque de soja brasileira destinado ao mercado internacional.
Os Estados Unidos ocupa a segunda posição entre os países parceiros em 2024, quando comprou US$ 12,1 bilhões de produtos do agro nacional, o que representa um acréscimo de 23% em relação ao ano anterior. Os principais produtos exportados foram café verde, celulose, carne bovina e suco de laranja.
