
Nos últimos anos, o Dia Mundial da Saúde Mental, celebrado em 10 de outubro, tem sido cada vez mais associado a slogans publicitários e campanhas de marketing. A data, que deveria promover a reflexão sobre as condições reais que afetam a saúde mental da população, acabou se transformando em vitrines de “autocuidado em pílulas”, uma retórica que ignora as causas estruturais do sofrimento psíquico em tempos de crise social e produtiva.
Segundo o levantamento Ipsos 2025, 52% dos brasileiros consideram a saúde mental o principal problema de saúde atualmente, em 2018, o índice era de 18%. O aumento exponencial revela um cenário preocupante: mais afastamentos do trabalho, crescimento das tentativas de suicídio, alta na prescrição de psicofármacos e maior uso de substâncias.
Especialistas alertam que as campanhas institucionais e corporativas, embora bem-intencionadas, têm falhado ao concentrar-se em discursos genéricos sobre resiliência e positividade, em vez de atacar o cerne da questão. O sofrimento psíquico está profundamente ligado à precarização das relações de trabalho, à pressão por produtividade constante e à influência das plataformas digitais que moldam comportamentos e emoções.
O fenômeno da plataformização e o uso intensivo de algoritmos e inteligência artificial agravam a situação ao impor ritmos acelerados de consumo e comparação social. A exposição contínua a conteúdos que reforçam padrões inalcançáveis e a busca por validação digital contribuem para aumentar a ansiedade, a sensação de inadequação e o isolamento.
Mais do que promover jornadas superficiais de bem-estar, especialistas defendem que é preciso reorientar o debate sobre saúde mental para suas causas estruturais, econômicas, tecnológicas e sociais e para políticas públicas efetivas de prevenção, acolhimento e cuidado.
O desafio, portanto, é romper o ciclo do discurso pronto e enfrentar o problema onde ele realmente nasce: nas desigualdades, na lógica produtivista e nas dinâmicas digitais que estão adoecendo a sociedade.
