
A psicóloga palotinense Graciela Lopes publicou um texto analisando o caso ocorrido recentemente em João Pessoa, onde um jovem identificado como Gerson morreu após entrar na jaula de uma leoa. Para a profissional, o episódio não deve ser tratado como um fato isolado ou reduzido à relação entre o jovem e o animal, mas como reflexo direto das falhas estruturais da saúde mental pública no Brasil.
Segundo Graciela, manchetes como “Homem é atacado e morto por leoa” omitem o contexto fundamental que antecede o ocorrido. Para ela, o título mais adequado seria “A desassistência psiquiátrica que segue produzindo vítimas”, uma vez que o caso expõe, de forma contundente, a falta de acompanhamento contínuo para pessoas com transtornos mentais graves.
No texto, a psicóloga destaca que a rede pública ainda não conta com ambulatórios especializados, serviços de hospital-dia, leitos psiquiátricos e residências assistidas suficientes para atender a demanda. Ela também chama atenção para a escassez de medicamentos essenciais nas farmácias populares, o que compromete a manutenção terapêutica e favorece recaídas.
A profissional observa que diferentes níveis de atenção, da atenção primária às urgências, não atuam de forma integrada, o que impede a construção de um cuidado contínuo e coordenado. Mesmo no âmbito judicial, afirma, a ausência de hospitais de custódia ou unidades especializadas dificulta o acesso a tratamento adequado.
Para Graciela, atribuir responsabilidade apenas ao indivíduo ou ao animal desconsidera a complexidade envolvida. “O episódio demonstra, mais uma vez, que a falta de políticas públicas integradas e devidamente financiadas compromete não apenas o cuidado, mas também a segurança social”, afirma.
Ela reforça ainda o compromisso profissional em defender o acesso universal a tratamento psiquiátrico qualificado, baseado em ciência, continuidade terapêutica e atenção integral. “Situações como esta evidenciam a urgência de fortalecer toda a rede de saúde mental no país, de modo que ninguém fique desassistido ou exposto a riscos evitáveis”, conclui Graciela.
Graciela Lopes é psicóloga e doutoranda (08/24600).
